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2025: Um Ano de Contradições e Aprendizagens

O ano de 2025 termina como começou: complexo, contraditório, e profundamente humano. Para muitos, foi um ano de desafios; para outros, de pequenas vitórias; para todos, um convite à reflexão sobre o que verdadeiramente importa.


Não seria honesta, em começar este artigo sem reconhecer as realidades que marcaram 2025. Vivemos um ano de turbulência geopolítica intensificada, com conflitos armados que não terminaram mas evoluíram em novas direções. A guerra na Ucrânia prosseguiu pelo seu quarto ano, trazendo sofrimento contínuo a milhões. No Médio Oriente, novas tensões eclodiram, embora cessar-fogos momentâneos tenham trazido pequenas esperanças de tréguas.

Politicamente, o mundo assistiu a instabilidade sem precedentes. Mais de 60 países enfrentaram eleições ou mudanças políticas significativas. Em muitos deles, gerações mais jovens mobilizaram-se de formas que não tínhamos visto antes: questionar sistemas estabelecidos e reclamar por mudança. Isto é importante: não é caos, é consciência.

A crise mental global intensificou-se. Dados de 2025 mostram que 1 em cada 5 adultos enfrenta alguma forma de doença mental. Entre os adolescentes, 1 em cada 3 relata sentimentos de desesperança ou desespero. Solidão, ansiedade, depressão – estas não são palavras abstratas, são experiências vividas por pessoas reais.

E há mais: a economia global cresceu, mas lentamente. A desigualdade entre ricos e pobres agravou-se. A inflação alimentar continua devastadora em muitos países. O desemprego preocupa especialmente os jovens. Muitas famílias ainda sentem o peso de vidas mais difíceis.


Mas isto não é toda a História. E aqui é onde a verdade completa emerge. O mesmo ano 2025 viu progressos extraordinários que raramente ganham manchetes.

  1. Inovação em Saúde: Cientistas realizaram avanços revolucionários em medicina regenerativa. Edição genética personalizada começou a salvar vidas – crianças com doenças raras e antes incuráveis receberam esperança. Implantes cardíacos criados com células-tronco começaram a funcionar em contexto clínico. Pela primeira vez, investigadores mapearam o corpo humano com um detalhe sem precedentes. Isto significa que a medicina do futuro será cada vez mais precisa e personalizada.

  2. Energia Limpa: 2025 marcou um ponto de viragem histórico: energia renovável (solar e eólica) ultrapassou o carvão e tornou-se a principal fonte de eletricidade em vários contextos globais. Alguns países passaram a gerar grande parte da sua energia de fontes limpas. Isto não são apenas números; é mudança real nas fundações da nossa sociedade.

  3. Comunidades que Reconstruem: Por todo o mundo, pessoas comuns fazem coisas extraordinárias. Após catástrofes naturais, comunidades reconstroem casas com mais resiliência. Mulheres organizam abrigos, voluntários coordenam resgate, vizinhos criam redes de apoio. Isto é o que significa comunidade.

  4. Natureza que Regressa: Espécies ameaçadas começaram a reaparecer em algumas regiões graças a esforços de conservação. Há projetos sérios de restauração de florestas e ecossistemas. Sim, a destruição ambiental continua a ser um problema, mas pela primeira vez há ação coordenada em larga escala.


O Que Isto Significa Para Cada Um de Nós

Como psicóloga que trabalha com famílias e crianças, o que se vê em 2025 é isto: a realidade é complexa, mas isso não significa que seja desesperada.


Para os que sofrem ansiedade extrema e têm receio de mudança: Há pessoas que chegam ao consultório presas numa esperança contraditória – desejam mudar, mas resistem a cada passo porque a mudança assusta. E têm razão: assusta mesmo. Mas o que paralisa, muitas vezes, é mais o medo do desconhecido do que a realidade em si. Quando se começa pequeno, um passo de cada vez, a mudança torna-se possível. Não é preciso ser herói; é preciso ser honesto.


Para as pessoas que enfrentam perdas significativas – que perderam membros, cônjuges, projetos de vida: há quem precise de tempo, de respeito pelo seu luto, de espaço para a raiva e para o silêncio. Precisa também de ouvir que continuar a viver, mesmo enquanto sofre, é uma forma de honra, não de traição. Continuar não é esquecer – é sobreviver.


Para adolescentes que sentem que não podem contar com os pais e sofrem sozinhos: Há histórias de jovens que carregam o mundo às costas em silêncio. O silêncio, porém, dói mais do que a partilha. Procurar alguém – um professor, um psicólogo, um amigo, uma linha de apoio – não é fraqueza, é sobrevivência. Ninguém merece sofrer sozinho.


Para famílias que têm medo de que os filhos lhes sejam retirados: O medo é real. A culpa também. Mas a força está lá. Muitas famílias conseguem reconstruir dinâmicas porque acreditam que podem e porque pedem ajuda. Apoio não é vergonha – é um ato de proteção.


Para as pessoas que se cruzam com o caminho da droga e de outras dependências: Seja álcool, drogas ou outros comportamentos compulsivos, o caminho passa quase sempre por um dia de cada vez. Comunidade, apoio, acompanhamento, honestidade. Não existe recuperação isolada. Quando as pessoas se unem em torno de alguém, mudanças profundas tornam-se possíveis.


Para os pais e educadores: As crianças de hoje crescem num mundo contraditório. Mas o maior presente que se lhes pode dar é ensiná-las a encontrar beleza nas pequenas coisas. Um gelado, uma brincadeira com água, um filme depois da hora de dormir – pequenos momentos que fazem o coração acelerar. Há, por exemplo, uma peça de teatro portuguesa, O Valor das Pequenas Coisas, em que uma rapariga vende coisas que não custam dinheiro, mas fazem palpitar. É isso que as crianças precisam de aprender: que nem tudo o que importa tem preço.


Para miúdos e adolescentes que lutam com eles próprios e com o mundo: Está tudo bem não estar bem. Está tudo bem sentir que o mundo é demasiado, que as pessoas não entendem. Mas quanto mais se aprende a gostar de si, mais se abre espaço para gostar dos outros. Quando se deixa de se atacar interiormente a cada erro, diminui também a necessidade de criticar tudo e todos à volta. Isto é libertador.


Para as pessoas que criticam demasiado – a si e aos outros: Muitas vezes critica-se o outro porque não se sabe lidar consigo próprio. Quando alguém está sempre a apontar defeitos, por dentro há uma guerra silenciosa. Aprender autocompaixão não é cliché; é condição para alguma paz interna.


Para os que sentem solidão: 2025 lembrou-nos que conexão humana é um fator de proteção central. Comunidades, grupos de apoio, amigos, famílias – não são luxos, são necessidades. Se há solidão, que se procure ligação. Se há alguém sozinho perto de nós, que haja coragem de se aproximar.

Para os que sentem esperança em mudança: Que continuem. Há dados, histórias e exemplos que mostram que mudança é possível. Cada pessoa que procura terapia, que ajusta um padrão relacional, que escolhe não repetir uma violência, que escolhe energia mais sustentável, que investe em educação emocional, contribui para algo maior.


O Desafio Das Pequenas Coisas

Há um tema que atravessa tudo isto e que raramente é trabalhado com profundidade: desaprendemos a apreciar as pequenas coisas.

O mundo ensina a desejar o grande, o visível, o que se mostra nas redes sociais. Ensina a medir valor em conquistas, números, resultados. Pouco ensina a reconhecer a sorte discreta de estar vivo, de ter alguém com quem conversar, de ter um café quente numa manhã fria, de poder rir de algo simples.


A verdade, porém, é que a vida está feita quase toda de miudezas.

Um gelado num dia quente. A mão de alguém que se ama. Uma conversa em que finalmente se diz “tenho medo”. Um silêncio que não é hostil. Rir até não aguentar. Uma noite em que se dorme um pouco melhor. Uma refeição que alguém preparou com carinho.


O sol que entra pela janela.


Quando isto é verdadeiramente percebido, muita coisa muda. Não se fica imune à dor nem à crise, mas deixa-se de precisar de grandes acontecimentos para sentir que a vida vale a pena. A ansiedade diminui quando já não é obrigatório que tudo seja extraordinário. A crítica diminui quando se começa a reparar no que ainda está bem. A solidão atenua quando se aprende a valorizar encontros simples.


É também aqui que a arte tem um papel essencial. Peças como O Valor das Pequenas Coisas ou outras obras que falam de “todas as coisas maravilhosas” da vida quotidiana lembram que há beleza no que parecia banal. Seria desejável que toda a gente pudesse, pelo menos uma vez por ano, ver uma peça assim, ou ler um livro que ensinasse auto-confiança, compaixão e a arte de não viver em permanente julgamento.



Uma Mensagem Para o Novo Ano

Quando chega 31 de dezembro, há sempre uma mistura de saldo e desejo. Um inventário do que se perdeu e do que se ganhou, e uma espécie de negociação interna com o futuro.

É importante dizer: é legítimo entrar no novo ano cansado, assustado, com dúvidas. Os sentimentos fazem sentido. Ninguém é obrigado a estar eufórico só porque o calendário muda.

Mas é igualmente importante lembrar: 2025 mostrou que a mudança, embora lenta e às vezes invisível, é possível. Há gente em todo o lado a escolher diferente, a trabalhar diferente, a amar diferente. E isso conta.


Para o Ano Novo: Três Pensamentos Simples

  1. Autocuidado não é egoísmo Se uma pessoa não está bem, tudo o resto se desgasta. Cuidar de si – em terapia, no corpo, no sono, na alimentação, no descanso, na espiritualidade, na arte – não é luxo, é base.

  2. Comunidade é resistência Quando pessoas se juntam, criam redes de afeto e proteção que o mundo não consegue dar sozinho. Vale a pena conhecer vizinhos, criar grupos de partilha, participar em projetos locais, construir laços.

  3. Aprender a amar as pequenas coisas Talvez este seja o maior treino para 2026: aprender a reconhecer, com honestidade, aquilo que já está aqui hoje e que é bom, mesmo que seja pequeno. Um momento de riso, um olhar compreensivo, um café em silêncio, o facto de ainda haver caminho.


2025 foi um ano onde o melhor e o pior da humanidade conviveram lado a lado. Como sempre foi, mas talvez mais visível.


Para quem chega a janeiro a sentir-se derrotado: é compreensível. O mundo é duro. Mas há gente a trabalhar para o tornar mais habitável. Há profissionais de saúde dedicados, há professores atentos, há assistentes sociais exaustos mas presentes, há psicólogos a ouvir histórias difíceis todos os dias, há famílias a tentar fazer diferente do que receberam, há adolescentes a questionar padrões que já não servem.


E há cada pessoa que lê este texto – com as suas escolhas, as suas relações, a sua capacidade de, mesmo num dia mau, não descarregar a dor em mais violência.


Que 2026 traga clareza, gentileza consigo e com os outros, e um pouco mais de coragem para alinhar a vida com aquilo em que acredita. Que se possam construir comunidades mais fortes, relações mais verdadeiras, e uma relação mais terna consigo próprio.


Nem tudo está perdido. Nem tudo está ganho.

Mas estamos aqui, ainda, a tentar. E isso é suficiente para começar.


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