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Feridas que não se veem — O Silêncio depois das exigências

“Somos o que fazemos repetidamente. A excelência, portanto, não é um acto, mas um hábito.”

— Aristóteles


Feridas que não se veem

Crescemos como árvores dobradas pelo vento incessante das expectativas.

Pais que nos moldam com mãos de amor ansioso: “Sê forte, sê perfeito, sê o meu sonho realizado.”

Escola que nos pesa com notas como correntes: “Estuda, destaca-te, não falhes.”

Mas no silêncio entre ordens, falta o abraço. Falta o “Estás bem assim, só por existires.”

O nosso valor vira troféu de conquistas — e quando cai, esmaga-nos o peito.



“Tudo é ao mesmo tempo, presente e ausente.”

— Sophia de Mello Breyner Andresen


Há casas onde o vento é furacão. Pais perdidos em vícios que rosnam agressão, em pobrezas que devoram tempo, em ausências que deixam o coração órfão. Essas crianças não aprendem a voar — aprendem a sobreviver, com raízes tortas e solo estéril. Tornam-se adultos que se fecham como conchas feridas: egoístas na dor, rancorosos no vazio, manipuladores por medo de cair. O ciclo gira, silencioso e cruel — falta de amor que gera mais falta.

E há vozes que gritam do outro lado: “Fui criado a cinto, com palmadas que doíam na alma, e não me tornei fraco! Lutei, conquistei, não me queixo do passado. Este discurso amolece a juventude, faz dela geração de vitimizados!”


“Ser eu é ser inteiro; é ser pessoa. E ser pessoa é aceitar a pessoa que se é, com todas as suas contradições, com todos os seus defeitos, com todas as suas fraquezas. É aceitar-se imperfeito, é aceitar-se humano.”

— Fernando Pessoa


Mas nem toda a ferida sangra visível. O cinto marca a pele, mas o silêncio emocional marca a alma para gerações. Não é fraqueza pedir colo — é coragem admitir que humanos precisam de raízes nutridas, não só de troncos endurecidos.

Hoje, vejo o preço nas sombras dos olhos. Adultos ansiosos, eternos “bonzinhos” que se curvam sob o peso do “devias ser mais”. Acham que a vida lhes deve sorrisos fáceis, porque sempre cederam, sempre agradaram — e agora tremem, incapazes de erguer a voz.


Adolescentes que afundam em ansiedade voraz, peito apertado perante um olhar torto. Crianças da primária — miúdos de mochilas leves e corações pesados — com ataques de pânico que os dobram, depressões que roubam o riso.

É o eco das exigências sem validação. É o “ter de ser” sem o “ser amado”.

Parem um instante. Olhem para eles — para nós.


Diga: “Eu vejo-te. Erra, chora, sê imperfeito. O teu valor não é nota, nem força bruta, nem aprovação alheia. És suficiente, aqui, agora.”

Ensine auto-compaixão como bálsamo: “Gosto de mim, mesmo nas falhas. Sou eu, e isso basta.”

Quebrem o ciclo com mãos gentis. Porque a verdadeira força não é calar a dor — é curá-la, para que as árvores cresçam livres, raízes profundas no solo do amor próprio.




 
 
 

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