Noiva em Fuga e a coragem de estar só

Muitos de nós vimos Noiva em Fuga (Runaway Bride, 1999) como mais uma comédia romântica leve, daquelas para ver num domingo à tarde. As sucessivas fugas de Maggie (Julia Roberts) no altar fazem-nos rir. Por trás do humor, porém, o filme aborda algo que encontro com frequência em consulta: a dificuldade em assumirmos quem somos.
A questão dos ovos
Numa das cenas mais conhecidas, Ike (Richard Gere) faz notar a Maggie que ela nem sequer sabe como gosta dos ovos. Com cada noivo, pedia-os da forma que ele preferia: mexidos com um, estrelados com outro, escalfados com o seguinte.
Parece um pormenor, mas diz muito. Quantas vezes ajustamos os nossos gostos, opiniões e escolhas para corresponder ao que os outros esperam de nós?
Pressão social ou medo?
Estamos constantemente expostos ao olhar e à avaliação dos outros, e é fácil sentir que existe um guião a seguir. Mostrarmo-nos como somos exige esforço e implica o risco de não sermos aceites. Por isso, muitas pessoas acabam por se anular, por receio da desaprovação.
Talvez a questão, no entanto, não esteja apenas no que a sociedade permite. Muitas vezes, o maior obstáculo é o nosso próprio medo da rejeição.
Esta dificuldade está ligada a outra, ainda pouco falada: a capacidade de estar só.
"Vais sozinho ao cinema?"
É uma pergunta que muitos já ouviram, quase sempre em tom de estranheza. Ir à praia, almoçar fora ou passear sem companhia continua a ser visto como sinal de tristeza ou de falta de amigos, como se quem está só estivesse necessariamente infeliz.
Há, contudo, uma distinção importante a fazer:
Solidão é a experiência dolorosa de nos sentirmos isolados, desligados ou incompreendidos. Solitude é a capacidade de estarmos bem na nossa própria companhia.
Em solitude, ir ao café torna-se uma oportunidade para ouvir os próprios pensamentos. Ir ao cinema permite viver o filme ao nosso ritmo, sem necessidade de comentar cada cena nem de procurar a aprovação de alguém.
O pediatra e psicanalista Donald Winnicott considerava, aliás, a capacidade de estar só um dos sinais mais importantes de maturidade emocional.
O que Maggie descobriu sozinha
No final do filme, Maggie só deixa de fugir quando decide dar tempo a si mesma. Afasta-se, experimenta várias formas de preparar ovos e descobre, finalmente, qual prefere. Mais do que isso, começa a perceber quem é, independentemente de quem tem ao seu lado.
Estar bem connosco
Ir sozinho ao café ou ao cinema não tem de ser triste. Pode ser, pelo contrário, um sinal de autonomia e de segurança interna: não precisamos de companhia permanente para nos sentirmos inteiros. E é precisamente quando estamos bem connosco que ficamos mais disponíveis para partilhar a vida com alguém, sem precisar de fugir nem de fingir.
E tu? Consegues apreciar a tua própria companhia, ou ainda sentes o peso do julgamento quando sais sozinho? E, já agora, como gostas dos teus ovos? Conta-me nos comentários.





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