Os espelhos que nos formam: autoestima na infância e na adolescência

Terminei há dias a leitura de Labirinto de Espelhos: formação da auto-estima na infância e na adolescência e ficaram-me algumas ideias que vale a pena partilhar.
A construção da identidade tem, de facto, qualquer coisa de labiríntica. Há passos que abrem caminhos novos e há passos que nos devolvem ao mesmo sítio, vezes sem conta. No centro desse percurso está a autoestima, que os autores definem como o juízo de valor que cada pessoa faz de si própria e que se revela, sobretudo, na forma como se trata a si mesma. Para quem trabalha em saúde mental, este não é um pormenor teórico: a autoestima continua a ser um dos indicadores mais fiáveis do funcionamento psicológico de uma criança ou de um adolescente.
Nenhuma criança nasce com uma imagem de si já formada. Constrói-a a partir dos espelhos que lhe vão sendo colocados à frente, e os primeiros são os pais, a que se juntam depois os professores e os pares. A família funciona aqui como o terreno firme que permite atravessar o labirinto sem receio de se perder. Quando o afeto é constante e os limites são claros, a criança aprende a confiar naquilo que vê refletido. Quando predominam a dominação, o ridículo ou o castigo desproporcionado, o reflexo que lhe devolvem é o de alguém que vale pouco, e é esse o retrato que ela interioriza.
A investigação revista ao longo do livro mostra uma associação inversa consistente entre exposição à violência e conceito de si. Merece atenção particular a violência psicológica, aquela que raramente deixa marcas visíveis: ignorar, aterrorizar, rejeitar. Muitos adolescentes dizem-no com uma clareza desarmante, que as palavras magoam mais do que um estalo. A agressão física esgota-se no momento; a verbal fica a remoer por dentro e vai fraturando devagar a perceção de competência.
Na prática clínica, a baixa autoestima costuma apresentar-se sob a forma de isolamento, ansiedade, sensibilidade excessiva à crítica e dificuldade em sustentar uma opinião própria diante dos outros. Nos quadros mais graves, surge associada a sintomatologia depressiva e a ideação suicida. Do outro lado da mesma equação está a resiliência, a capacidade de atravessar a adversidade e sair dela com alguma coisa ganha, que não é um traço com que se nasça nem um dom raro: cresce com apoio social, emocional e afetivo disponível.
Daqui decorre, para o clínico, uma orientação bastante concreta. O trabalho passa por reconstruir os espelhos do paciente, devolvendo-lhe imagens mais fiéis do que aquelas a que se habituou. Promover o reconhecimento da própria capacidade e abrir espaço ao diálogo são passos decisivos para que o adolescente deixe de se viver como um pequeno David perante um gigante interno de insegurança e comece a assumir o comando da sua história.





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